Pereira da Costa, Administrador da FASE, deu uma entrevista ao Jornal Construir



Criada há 30 anos no Porto, a FASE pretende entrar na Roménia e na Bulgária. Apoiada no GED, como private equity e sócio da empresa, a estratégia da FASE passará pela aquisição ou parcerias com empresas locais.


A Fase celebra em 2009 trinta anos de actividade. Qual o balanço que faz?
É um balanço extremamente positivo. Em 30 anos assistimos a mudanças no País, o que, evidentemente se reflectiu na evolução da nossa empresa. A Fase começou por fazer projectos de dimensão mais pequena, muito dedicados à electricidade e instalações mecânicas, muito vocacionados para o cliente industrial. À medida que o país se foi desenvolvendo e evoluiu, acompanhámos esse desenvolvimento e fomos crescendo, alargando as nossas competências para a área de construção civil. Em 1982/1983 dirigimos a nossa acção para os serviços de Coordenação e Fiscalização de Obra que, naquela época, era habitualmente assegurada pelo próprio Dono de Obra. Posteriormente, os Dono de Obra sentiram a necessidade de entregar fora aqueles serviços, com vista a uma abordagem mais profissionalizada dos mesmos, e portanto a Fase, a partir de 1985, começa a ter na sua organização quadros específicos para os Serviço de Coordenação e Fiscalização de Obras. Com naturalidade, a Fase alargou os seus serviços na óptica da Gestão de Empreendimentos. Neste momento, podemos dizer que trabalhamos o projecto de forma multidisciplinar, ou seja, em todas as suas vertentes, não só para a indústria mas também para edifícios e infraestruturas, tendo em conta a oferta de mercado. Por exemplo, na indústria, o mercado de águas e ambiente é muito recente mas em grande desenvolvimento, face às infra-estruturas existentes no País. Actualmente, a Fase está situada nos primeiros lugares das maiores empresas Nacionais de engenharia, com Sede no Porto e Escritórios em Lisboa, assegurando uma cobertura completa do território do Continente e Ilhas, pelo que iniciamos já há alguns anos um alargamento da nossa actividade para os mercados externos.

A nível internacional, a Fase já trabalhou na Argélia, Angola, Espanha e Macau...
A internacionalização é um vector importantíssimo. Actualmente, temos em curso a gestão de projecto do Metro ligeiro de Macau. Já em 1992 trabalhámos em Macau, fazendo o projecto para o Centro Cultural de Macau. Entretanto em 2006 regressámos a Macau e constituímos a Fase Ásia, empresa onde detemos participação maioritária, juntamente com outra empresa nacional de engenharia. Com a Fase Ásia ganhámos um importante concurso para a coordenação e fiscalização da obra do Centro de Ciência de Macau. Trata-se de um edifício emblemático, um ícone reconhecível quando se entra em Macau. Trata-se de uma obra que será inaugurada ainda este ano, visto que se encontra praticamente em conclusão. Esta vivência mais recente em Macau, permitiu-nos também aproximar da obra pública, sendo que acabámos por concorrer ao Metro Ligeiro de Macau com duas empresas francesas, com know-how específico em metros automáticos. Depois de sermos pré-qualificados, ganhámos o respectivo contrato de prestação de serviços para a Gestão do projecto e Assistência Técnica, com um duração prevista de quatro anos. Dada a sua dimensão e importância, é um trabalho que nos abre muitas perspectivas, visto tratar-se de um projecto ainda no início e que corresponde à primeira fase de obra. Para este trabalho, que começou há meio ano, constituímos a Fase Sucursal Macau, uma extensão da Fase e que serve basicamente para efeitos administrativos e contratuais.


Actualmente, que oportunidades identificam em Macau?
Em Macau as oportunidades esmoreceram um pouco. As obras de iniciativa privada, como por exemplo os Casinos, abrandaram, fruto das circunstâncias da crise mundial. No que diz respeito à obra pública, não se encontra com a força esperada, até pela mudança que se vai verificar no executivo, e daí que se espere futuras evoluções. No entanto, consideramos Macau um mercado com potencial de desenvolvimento.

A Fase vê Macau como uma “porta de entrada” para o mercado chinês?
Pode ser uma “porta de entrada” para a China. No entanto, neste momento, não temos perspectivas para este mercado. Há dois anos fizemos parte de uma delegação portuguesa que visitou a China mas nada resultou. É preciso ter um acompanhamento muito próximo, assíduo e presente. No caso de Macau, temos tido um sucesso que ultrapassou as nossas expectativas, tendo a Fase, neste momento, dois bons contratos. Podem inclusive surgir outras oportunidades. É um mercado importante, onde temos colaboradores colocados, apesar de verificarmos sempre alguma dificuldade e esforço por parte das pessoas, porque, naturalmente, são territórios muito longe de Portugal, com uma cultura muito própria.

Encontram-se também presentes em África. Que oportunidades detectaram neste continente?
Constituímos a AfriFase em Angola, visto acreditarmos que se trata de um país em franco desenvolvimento onde já desenvolvemos variados projectos. Todos esses projectos têm uma dimensão significativa, sendo que, neste momento, devemos fazer uma reflexão quanto à melhor forma de respondermos aos próximos desafios. Angola é um mercado emergente e onde é preciso ter presença, pelo que temos de estar atentos e tentar responder da melhor maneira às suas solicitações. Existem no entanto outros mercados, como Moçambique, Argélia e Líbia, onde temos concorrido a uma série de concursos, pelo que estamos na expectativa de ver a evolução destes mercados. Na realidade, o que verificámos é que o ano não foi muito “famoso” para concretizar projectos. Ainda relativamente à questão dos trinta anos da Fase, o que é facto é que temos agora na nossa estrutura um novo accionista, o GED, uma sociedade ibérica de private equity, que visa fundamentalmente o crescimento da Fase mediante a sua expansão, para além de Portugal e Espanha, paras os mercados da Europa de Leste.

A expansão para a Europa de Leste passa pela aquisição de empresas locais?
Trata-se de um mercado novo para a Fase. Temos interesse em entrar na Roménia e na Bulgária, sendo, de facto, a aquisição uma das possibilidade que estamos a estudar. Outra possibilidade será fazer parcerias internacionais, como foi o caso de Macau. Considero que as parcerias são sempre bem-vindas, até mesmo no mercado português, onde já temos realizado várias. Desde que seja para operar em áreas complementares, uma parceria constitui-se sempre como uma mais-valia, em que um mais um é muito superior a dois.

Falou da Roménia, que oportunidades detectou a Fase nestes mercados?
Confesso que ainda não foi feita uma análise pormenorizada. No entanto, à partida, as oportunidades na Roménia poderão estar relacionadas com as áreas de infra-estruturas de transportes, nomeadamente caminhos-de-ferro e estradas, mas também com a parte de construção imobiliária, como grandes superfícies, centros comerciais e outros empreendimentos. A Roménia é um país em franco desenvolvimento, que está a partir de um estado em que ainda há muito para fazer. Acredito que a partir do próximo ano já poderemos estar a entrar no mercado romeno.

O avanço para a Bulgária será feito em simultâneo com a aposta na Roménia?
A Bulgária será numa segunda fase, não é um destino que pretendamos avançar desde já, e quando o fizermos será numa fase posterior à da Roménia. As áreas em que pensamos actuar são as mesmas que identificámos para a Roménia, isto é, infra-estruturas de transportes e imobiliária. Como a Fase é uma empresa de engenharia e arquitectura, poderá ser útil, face às relações que o nosso sócio GED tem há mais de dez anos na Roménia. No entanto, sublinho, neste momento estamos ainda numa situação de análise de mercado.

Que outros mercados consideram ter condições interessantes para a Fase dirigir a sua actividade?
O Brasil é um bom exemplo. Recentemente tivemos a visita de um colaborador nosso a este país, tendo em conta a realização do Campeonato do Mundo de Futebol. Agora também com os Jogos Olímpicos, cuja realização foi recentemente atribuída à cidade do Rio de Janeiro, é mais uma importante oportunidade. O Brasil, por aquilo que me é dado saber não tem falta de engenharia, tratando-se de um país que, reconhecidamente, tem uma boa engenharia e arquitectura. O que acontece é que, em períodos mais intensos de trabalho e de grande dinamização profissional, Portugal poderá tirar partido do facto de falar a mesma língua, o que explica a visita do nosso colaborador ao país. É importante estarmos atentos às oportunidades que surjam e ver as parcerias que poderemos estabelecer.

A nível nacional, a Fase desenvolveu a consultoria técnica e estudo de desenvolvimento da capacidade de desenvolvimento do Aeroporto de Lisboa. Contam participar no Novo Aeroporto de Lisboa?
Obviamente que contamos mas, tendo em conta que agora mudou o modelo, não temos nada em curso. No entanto, trata-se de uma excelente oportunidade. Verifica-se uma certa confusão no avanço do próprio projecto pelo que estamos numa posição expectante, estamos a aguardar por podermos vir a participar em concursos. Os grandes empreiteiros são um possível cliente potencial para estes grandes empreendimentos, conforme os modelos que o Governo venha a adoptar para a sua construção.

No caso da alta velocidade, já foram lançados concursos para alguns troços...
Para o TGV não estamos, de momento, envolvidos em nenhuma realização concreta, mas estamos a participar num concurso para projecto, e contamos no futuro vir a estabelecer acordos de parcerias com empresas especializadas em projecto e fiscalização de obras de alta velocidade. O facto do nosso sócio, o GED, ter conhecimentos em alta velocidade, dado que em Espanha o projecto já se encontra desenvolvido, é sempre uma garantia para a Fase, visto que podemos estabelecer parcerias com outras empresas do sector de engenharia.

Pelo facto de o actual Governo ser defensor do TGV e do novo aeroporto de Lisboa, sente maior segurança e confiança no avanço destas obras? Ou será que o facto de o Governo não ter maioria, poderá voltar a trazer alguma instabilidade aos projectos?
À Fase cabe unicamente estar a aguardar. Obviamente que, para além de defendermos os projectos, temos confiança no seu desenvolvimento, visto que acreditamos que serão positivos para o País. Neste momento, os empreendimentos têm de se desenvolver e ser lançados, para a sua efectiva concretização. A Fase está envolvida também no apoio e fiscalização de outros projectos, como da auto-estrada do Baixo Alentejo, outro grande empreendimento que poderia estar algo influenciado politicamente, mas que o País tem todo o interesse no seu desenvolvimento. Acredito que temos de estar muito atentos a todas as realidades possíveis, principalmente a nossa Direcção Comercial e Marketing.

No domínio da formação de engenheiros, o bastonário da Ordem dos Engenheiros, Fernando Santo, considerou há tempos que existem “grandes assimetrias”. Partilha desta opinião?
É natural que haja assimetrias entre escolas de engenharia. Agora, no que diz respeito à Fase, como empresa de engenharia de referência, o recrutamento que faz é em escolas tradicionais, aqueles com as quais também temos relações mais próximas, nomeadamente as Universidades do Porto, de Aveiro, do Minho, do Trás-os-Montes e Alto Douro. De facto, não temos tido razão de queixa, antes pelo contrário, sentimo-nos muito bem servidos, em termos da qualidade de formação dos jovens engenheiros. Penso que a aposta nos jovens é fundamental, sendo que o que interessa à Fase é que as escolas formem bons profissionais. É evidente que a Fase faz um recrutamento selectivo, a partir das suas necessidades, com rigor, baseada em entrevistas e referências e, de facto, temos tido bons resultados. O que é preciso é haver muita exigência no processo de recrutamento, pelo que, na Fase, não temos sentido essas assimetrias.

A qualidade da engenharia portuguesa é reconhecida. Recentemente, a Igreja da Santíssima Trindade, em Fátima, projecto em que a Fase participou, venceu um dos mais importantes galardões internacionais de engenharia...
É verdade, a Fase participou e a Igreja constitui-se num projecto emblemático para a empresa. Na verdade, os nossos colaboradores estiveram durante cerca de sete anos a acompanhar o dono de obra, na óptica da gestão do projecto e fiscalização. Parece-nos que o resultado é muito bom e isso reflectiu-se nos factos de que, não só o projectista de estruturas, o professor Mota Freitas, ganhou o prémio, como a Fase ao participar na obra, acaba por ser reconhecida.

Nos últimos 10 anos assistiu-se a uma evolução negativa na construção. De acordo com a sua experiência, o que se pode esperar nos próximos tempos?
A Fase, felizmente, tem tido trabalho e, inclusive, tem admitido novos colaboradores embora com alguma precaução, sendo que, paralelamente, tentamos a estabilização dos nossos quadros. A crise de que se fala efectivamente existe, havendo muita dificuldade em ganhar trabalhos. Os preços são perfeitamente inadequados e desajustados para as exigências que são feitas pelo donos de obra. Fruto do estado em que o mercado se encontra, em que a nossa concorrência vai permanentemente apresentando preços inaceitáveis, a Fase, enquanto prestadora de serviços, tem de estar sempre com grandes projectos em carteira. O que se verifica é que, se a Fase quiser acompanhar a concorrência, tem de descer a preços incompatíveis face aos requisitos e exigências das obras.

Como acha que esta situação pode ser resolvida?
Quem tem poder para alterar esta situação é o cliente, isto é, o dono de obra, que poderá começar a exigir mais qualificações e apresentar requisitos a cumprir mais rigorosos. O cliente deve ter uma avaliação mais justa, sendo que esta justiça não está associada à proposta mais barata, visto que o mais barato só se saberá no fim e tem de ser visto numa óptica de conjunto. Deve haver uma consciencialização maior por parte do sector, até regulada pela Associação Portuguesa de Projectistas e Consultores, em que se define um quadro valorativo minimamente justo.

No último exercício a Fase facturou 18 milhões de euros. Como está a correr 2009?
Está a correr bem, temos a perspectiva de continuar a crescer este ano. Não estamos à espera de ter um crescimento idêntico aos anos anteriores, visto que temos consciência das dificuldades e pelo facto de que, em termos de rentabilidade, não adianta ter muito trabalho quando depois é difícil enquadrá-lo, em termos de preços, na nossa organização. Trata-se de um desenvolvimento sustentado por dentro, a partir da própria Fase. O que é realidade, é que temos uma carteira de encomendas que nos dá confiança para enfrentar um futuro próximo. Aliás, com o processo de reorganização societária, que levou à entrada do GED, como private equity, a Fase ganhou mais-valias, não só de competitividade e de competências, mas também de possibilidade de aquisição de outras empresas.

Quando fala em aquisição, refere-se ao mercado português?
Sim, em Portugal, mas também em Espanha e Roménia. Temos empresas em vista, às quais estamos atentos. A nossa preocupação não será tanto a dimensão da empresa, mas mais baseada nas competências. Assim, eventuais participações futuras da Fase no capital de empresas congéneres serão um reflexo de uma política de desenvolvimento sustentado e de alargamento de competências.
 
Download: Entrevista_jornal_construir_Out_2009.pdf

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